O espaço entre as lágrimas que choramos é a risada que nos mantém buscando mais. Aqui.
'Talvez haja muita acidez na lucidez, talvez haja a percepção
de detalhes das belezas que nunca reparamos. Quando estamos num
turbilhão emocional, as imagens turvas pedem anestesias e a gente acha
que obtém algum controle sobre as coisas, porque pensamos que podemos
deixar pra cuidar da nossa vida amanhã. Mas à medida que protelamos
nossa transformação, à medida que adiamos nossa mudança, adiamos também
uma forma nova de sentir outras alegrias. E fechamos os olhos pra quem
está ao lado, ou banalizamos um possível encontro que poderia
desencadear uma história mais bonita. Ter a felicidade como um
propósito, é a coisa mais difícil que conheço. Estamos sempre fugindo de
nós mesmos e nos julgamos espertos demais com a porção de pequenas
mentiras que inventamos. Mas a angústia que vem disso não nos deixa
esquecer que só estamos adiando um processo precioso e delicado demais
já que podemos continuar nos anestesiando. É preciso estar pronto, mas
estar pronto também é transitório. E é preciso lucidez e coragem pra
enfrentar o nosso pior inimigo: nós mesmos. Admitir que estamos nos
fazendo mal com alguns hábitos ou relacionamentos destrutivos é
assustador. E muitas vezes a sensação de impotência é o que impera.
Somos imediatistas demais e não queremos sentir dor. Camuflamos nossa
infelicidade da forma mais adequada que podemos. E passamos boa parte da
vida sendo quem não somos. Até que nos esquecemos de quem somos e
vivemos aquela máscara social por tempo demais, mas sempre com aquela
sensação de que alguma coisa está fora do lugar, nutrindo relações
vazias e breves com medo de sermos descobertos.
Quando
entrei em reclusão para organizar o que estava fora do lugar, tive uma
das piores sensações da minha vida: era uma espécie de crise de
abstinência e a bagunça estava tão generalizada que eu não sabia por onde
começar a arrumar as coisas. Foram noites e dias enfrentando a vida de
peito aberto, e sangrava. Eu chorava baixo e pedia paciência. E tinha
pesadelos todas as noites. Acordava cansada e com o olhar mais triste
que já tive.Até que tudo foi se ajeitando aos poucos, dentro do meu
tempo e dos meus limites. Eu estava num processo de cura e não
percebia.Mas estava buscando avidamente ser quem eu realmente era, ou pelo menos, melhor.
Hoje,
eu consigo olhar pro meu passado como uma espectadora. E apontar cada
detalhe, cada erro e acerto, cada instante, sensação e fuga. As
projeções que fiz, as dependências que criei, as compulsões que tive,
hoje são um presente de maturidade e otimismo. Porque comecei a atrair
pessoas, histórias e assuntos mais leves, saudáveis. E criei pra mim uma
rotina de paz. E deixei de admirar muita gente e a apreciar outras. E
vivi muita solidão, muita solitude, muito aconchego e muito amor também. Tudo vai dar certo sempre. Porque a vida se encarrega das coisas e ela nos compensa com ela mesma. Tudo vale a pena se você sentir valer. Lembro sempre, quase como um mantra: Devagar também é pressa. Uma vez também é sempre. Amém.'
'Um brinde ao inesperado e às diversas formas de seguir em frente'