Um conselho pra mim mesma. Aqui.
E é como se eu não pudesse fazer mais nada. Vejo você indo e não faço nada, só assisto você sumir da minha vida como
se tudo o que já foi vivido não tivesse servido, como se não tivesse
sido importante. Você me marcou e tudo o que eu consigo fazer agora é
abrir mão, como se tudo o que já passou tivesse sido apagado de um jeito
que nem eu saberia explicar. Mas é sempre aquela mesma pergunta: O que eu posso fazer? Você se deixou partir antes mesmo de ser ausência de fato. Você vai… eu
fico. E tudo o que eu sempre aprendi a fazer foi assistir. Assistir a
partida e segurar o coração, você desatou todos os nós. Mais um fim dos
nós cheios de nós. Mais um ponto de partida… quase sempre sem volta. Depois de todo esse tempo de tantas despedidas e de tanta
ausência consciente, aprendi que o que fica de mim e em mim é cada vez
mais verdadeiro, sou cada vez mais minha e só. Tudo o que sobrou dos nós
atados, foram as lembranças de uma vida não tão à dois assim. E o que a gente espera, quase sempre, e sem saber, é só o fim. Mas o tempo passa. Agora você se vai… e eu já consigo ver você indo. E
lá se vai você outra vez, pra do outro lado da minha sala, pra do outro
lado do meu mundo. Meus olhos quase não conseguem mais te ver… e daqui
há algum tempo, só os filmes vão fazer parte de toda essa história. E eu
não posso mais lutar contra.Você ia e eu não fechava a porta. Eu não ia por medo de não saber voltar. Só que eu sempre soube voltar, lembra? E você vinha… e ia. E ia. E vinha. E ia muitas outras vezes mais. Só que silenciosamente anunciava que se perdia e que não sabia ao certo voltar. Mas do mesmo jeito que eu tinha consciência de saber voltar caso eu
fosse, você sabia bem mais que eu que se perder era apenas um estado de
espírito, era só uma vontade. Você sempre soube o caminho de volta. Você sabia ir, você sabia voltar. Sabia estar e se perder quando quisesse. Você era tudo. E eu repito sempre e sempre e sempre: você foi tudo. Enquanto eu… com tudo… só aprendi a ser ausência. É como se, não sei, todas as coisas sonhadas fossem se dissipando
assim, num estalar de dedos. Eu tento correr contra o tempo, fugir de
tudo o que me leva para longe de você... mas você me afasta, é você,
mesmo sem perceber, que me empurra pra longe da sua vida. Pode não ser o
que você quer, mas é o que faz. Me sinto perdida e as vezes é como se
fosse eu a culpada de tudo. Me esforço em pensamento e o que sai é um nada. Simplesmente
nada. Porque eu não entendo nada. Não consigo achar um motivo plausível
para todos esses afastamentos brutos, esses empurrões e pedidos
desesperados de querer que te deixe sozinho. O que é que você quer de
mim afinal? O que quer que eu faça? Se num segundo tudo estava bem,
tudo está bem e aí, segundos depois estou eu aqui e você lá, no outro
canto da sala, sentado em uma cadeira qualquer, no escuro. Percorro meus
olhos e não consigo enxergar nada, não enxergo nem sequer você. E se já
não posso tocar, tatear e não posso ver, como é que você quer então que
eu ainda sinta? Sozinha não dá. Eu não posso sozinha e nem quero
sozinha. É um complemento mútuo, tem que ser e precisa ser uma coisa
mútua. Eu e você, dois em um. Mas eu não te entendo, nunca entendi. Não
consigo nem me entender, também. Só... não sei. Não sei mais o que
pensar, como agir. Somos duas crianças grandes. Egoístas, amáveis, doáveis.Estamos no fundo do poço. Procuramos a borda e quando encontramos, acabamos afundando porque temos um peso amarrado nos pés. O peso são os nossos corações, nos deixam livres no começo pra no fim nos prender. Por agora eu vou continuar aqui, deitada com olhos fechados e a
alma respirando. Ainda preciso te sentir mais perto e reviver algumas
frases, outros momentos. Revivo, relembro e guardo, mas não na
superfície de mim. Guardo em uma gaveta no fundo do fundo do fundo, vão
ser só lembranças. Vou olhá-las com saudade e só. Você não vai mais me tocar, porque aqui e aqui, quem te toca não sou mais eu..
'No final, ninguém perde o que nunca se teve.'
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